É difícil entrar numa excelente faculdade de medicina. Mais difícil ainda é entrar em uma excelente faculdade de medicina para desistir de uma vaga, que era sua. Seu nome tava lá. Um cheque, assine uns papéis e pronto, você se tornaria estudante de medicina. Não era isso que eu tinha sonhado a vida inteira?
Foi um ano difícil. Eu falei muito o ano inteiro de que fazer cursinho com o ensino médio era problema meu, eu que aguentasse a situação em que eu tinha me colocado, mas sem o cursinho eu não teria conseguido. Foi a melhor decisão que eu tomei. E ter chegado na segunda fase, ainda que tenha envolvido justiça, advogados e mandatos de segurança, já tinha sido muito pra mim. Em meados de julho, olhando a situação e vendo a de colegas no terceiro, quarto ano de cursinho, eu já tinha um sentimento que eu não passava nem na primeira fase.
Quando eu soube que tinha passado na Santa Casa, não vou mentir dizendo que achei um lixo e não fiquei feliz. Óbvio que fiquei, eu prestei Medicina no primeiro ano e entrei na 1a lista. Era minha 2a opção de curso, que seja, é uma conquista. E por 21 pessoas eu não entrei na Pinheiros – ou seja, na faculdade dos meus sonhos. É chegar muito perto. Agora eu me encontro na lista de espera, mas se rodarem 6 pessoas é muito, imagine 21. Tenho consciência disso.
Mas é, eu entrei no prédio da Santa Casa hoje pra desistir. Porque há um ano atrás eu desisti de inúmeras coisas e de oportunidades únicas pra correr atrás do meu único sonho, então eu acho que não dói desistir de uma excelente faculdade que não é meu sonho. Irrevogável o fato de que o valor da mensalidade – Santa Casa é uma instituição que embora use fuvest como vestibular, é paga – também ajuda na hora de decidir. Percebi que eu iria me sentir derrotada todos os dias sendo uma estudante de medicina fora da faculdade dos meus sonhos. Algo que eu aprendi no esporte é que a dor de algumas coisas é temporária, mas quando você desiste de algo, dói pra sempre.
Por um único sonho eu abri mão do esporte, da dança, do teatro, da vida social. É inevitável. Sei que agora vai ser tudo mais fácil, menos complicado, menos corrido. Eu passei o ano inteiro tentando conciliar meu último ano (num colégio pelo qual sou apaixonada) com os estudos pro vestibular mais difícil do país. Não me arrependo de nenhuma das escolhas que eu fiz ano passado, mas sei que agora eu estou mais perto do meu sonho. Há um ano atrás eu entrei no cursinho e no terceiro ano do ensino médio com um sonho na cabeça. Entro esse ano no cursinho, com o mesmo sonho, só que mais forte. Consolidado.
Não quero falar que sou estudante de medicina. Quero falar que eu sou estudante de medicina da Pinheiros.